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Um Fragmento Azul - Parte II



Foto de Luddy Searom usando uma camisa branca, sorrindo e com uma mão no óculos que está no rosto.

 

2018 foi um ano de grandes mudanças. Em março (ou fevereiro), por conta de uma amiga, a Fernanda, que tem um primo autista e viu muitas similaridades entre eu e ele, retomei a ideia de ser autista, que eu tinha abandonado no final de 2015. Comecei a pesquisar muito sobre o assunto, como se fosse um pequeno hiperfoco. Fiz um teste de internet chamado AspieQuizz, bem conhecido e baseado em artigos, que acusou que eu provavelmente tinha asperger, então pedi para que todos os meus amigos fizessem o mesmo teste – para a maioria deles, o teste disse que eram neurotípicos. Eu precisava de um número amostral maior, mas meus amigos haviam acabado. Sendo assim, entrei em grupos de autismo na internet e comecei a conversar com diferentes autistas adultos e a identificação, além de descoberta de “sintomas” autísticos que se encaixavam perfeitamente em mim, só aumentava.


Neste mesmo ano, tendo em vista minhas dificuldades, decidi me expor a condições adversas, em ordem de aprender a lidar com elas. Comecei a ir em bares com meus amigos, coisa que eu evitava ao máximo, fui em lugares movimentados, fui ao carnaval, fui à uma balada (em 2019) e acabei aprendendo muita coisa sobre mim. Por exemplo: eu sei agora que o meu tempo de tolerância a ambientes muito barulhentos é de 40 a 60 minutos e que eu preciso interromper o estímulo que me causa estresse (sons muito altos, no caso), ao invés de simplesmente minimizá-lo, para que eu volte à normalidade. O aprendizado não tem preço, então isso fez valer à pena, mas, se eu considerar apenas a diversão, ter ficado em casa com meus amigos, para mim, seria mais divertido. Neste ano, contei aos meus amigos sobre a minha sexualidade, mas ainda existem algumas pessoas mais distantes que não sabem sobre ela. Foi um ano de transformação, onde passei de uma pessoa que era tímida de mais para fazer um pedido numa padaria para uma pessoa que consegue desenvolver uma conversa com um desconhecido – mesmo que não tão bem quanto poderia. Obvio que fazer tudo que fiz em prol das minhas habilidades sociais nunca foi uma conquista solitária, eu sempre precisei de amigos: pessoas que se importam. No entanto, não foi um ano só de vitórias, afinal, para cada vitória temos alguns erros, onde aprendemos com eles. Eu passei por uma experiência traumática que, de certa forma, foi essencial para que eu não visse mais significado em nada e, simplesmente, me jogasse nas condições adversas, como se não tivesse nada a perder. Eu tive que começar terapia para mitigar danos maiores, lembro-me que uma das minhas queixas era uma certa instabilidade emocional.


Com o tempo, conheci muitas pessoas interessantes. Teve um filme que me ajudou muito a entender uma dinâmica importante sobre as pessoas. Eu sempre opero muito pela lógica, como a maioria dos autistas, e entender as pessoas sempre foi uma tentativa através de um pensamento lógico. O filme 7 Minutos Depois da Meia Noite ou A Monster Call, em inglês, me ajudou a entender que seres humanos não podem ser compreendidos através de um sistema lógico binário de 1 e 0. É um dos meus filmes favoritos, que me fez chorar e tem um final fantástico. Ele me fez perceber que as pessoas podem ser algo e, ao mesmo tempo, antagonistas deste “algo”, o que é bem contraditório, mas faz sentido. Entender as pessoas sempre foi uma tarefa complexa. “Humanos são criaturas complicadas”, diz a árvore do filme. Qualquer coisa subjetiva é complicada para alguém que tenta entender o mundo primariamente através de razão e lógica. Acho que só sei esta forma de entender o mundo.


Em setembro de 2019, se não me engano, recebi o meu diagnóstico. Tudo começou em março de 2018, quando uma psicopedagoga, chamada Alba, me encontrou num destes grupos de autismo do Face e entrou em contato comigo, perguntando se eu gostaria de conversar por vídeo-chamada. Eu era absolutamente tímido e declinei o convite. Um ano depois, em março de 2019, comecei a conversar com ela, porque achei que um tratamento fosse necessário. Ela chegou à conclusão de que eu era autista, realmente, depois de 3 meses de consultas de 1 hora toda semana. Depois, ela fez uns apontamentos e me disse para ir a um neurologista. O primeiro, foi um horror, um homem velho que não sabia nada sobre autismo, extremamente arrogante e orgulhoso de sua “medicina”. Ele me fez fazer dois exames: eletroencefalograma e ressonância magnética de crânio – o que foi bem útil. Fui à um outro neurologista, que disse que os exames estavam normais (o que era bom) e me encaminhou para uma neuropsicóloga, que me analisou através de 11 testes diferentes, entrevista com a minha mãe e através do meu comportamento durante as consultas. Ela concluiu que eu sou autista. Mas o meu neurologista, o qual abandonei, não quis me dar um laudo, mesmo com a neuropsicóloga afirmando com todas as letras o meu diagnóstico. Aqui no Brasil, só o médico pode dar o laudo.


No início de 2020, fui para um evento do curso da biologia, que ocorre todo ano, que chamam de A Ilha (porque vamos até a Ilha do Mel, onde ficamos 3 noites), o qual eu jamais iria se não tivesse treinado minhas habilidades e mudado tanto em 2018. No último dia, eu estava chorando na praia, às 06:00 da manhã. Fui tomado por um sentimento de frustração, porque não importava o quanto eu lesse ou o quanto eu tentasse interagir, eu nunca era satisfatoriamente bom. Eu nunca deixava de ser mecânico, nunca seria a pessoa mais sociável, nem sociável o suficiente para conseguir me virar sozinho num ambiente cheio de pessoas – tipo, se eu fosse à simpósio sozinho. É estranho, porque eu preciso aprender cada aspecto do que significa socializar, ao invés de “nascer sabendo” como a maioria das pessoas. É frustrante, porque eu nunca consigo saber o suficiente. No mesmo dia, conversei com meus amigos sobre o que estava me deixando triste. Eles me fizeram perceber que eu melhorei muito desde 2018 e que eu não preciso ser o melhor em sociabilidade e nem ser alguém extremamente sociável, que só preciso socializar até o ponto que me fizer sentir bem. Eles me mostraram que eu já superei inúmeros obstáculos, e que eu tenho uma boa relação com professores, como se eu soubesse falar com eles. Isso é verdade: eu melhorei muito. Sou uma pessoa completamente diferente se comparado com 2018, que foi um marco.


Com o início da pandemia, interrompi minha terapia. Estou retomando agora, com uma especialista em autismo, no entanto. Eu preciso de ajuda para entender algumas coisas. Amor é uma delas. Eu sempre descrevi o amor como um sentimento elusivo, porque ninguém nunca soube me explicar ele de forma objetiva. Embora eu saiba quando estou gostando, evito utilizar a palavra “amar”, justamente por não saber exatamente onde ela se encaixa. Às vezes, parece um sentimento tão forte e grandioso saindo da boca de algumas pessoas, outras, parece um sentimento tão banal e comum.


Passei por uma crise de ansiedade, poucos dias atrás, enquanto pensava sobre amor, socialização e meu passado, sobretudo no ensino médio. Um ou dois dias antes da crise, me dei conta de que o amor é subjetivo e não pode ser objetificado. A ex-namorada do meu irmão, Marilene, disse-me que eu não poderia quantificar o amor, porque eu estava conversando com ela sobre como eu poderia medir o amor e perguntando se existem vários tipos de amores ou um só. Eu sempre fui absolutamente racional e é difícil entender algo que não posso medir. Isso era um problema. Eu nunca disse para os meus amigos que amo eles, por mais que eu ame, porque não saber como definir isso me incomodava muito. Como eu poderia dizer que amo, se eu não soubesse o que significa, objetivamente, amar?


Até o final da crise, me dei conta de algumas coisas. A primeira foi que eu não sei me liberar para sentir, por sempre precisar ficar pensando sobre o que está acontecendo e o porquê de eu estar sentindo. Eu sempre preciso de uma razão. Ninguém sabe definir “vida”, ninguém sabe dizer o porquê de algo estar vivo, mas sabem dizer o que é vivo e o que é morto, qualquer criança sabe fazer isso. Da mesma forma, ninguém sabe o que significa o amor, de forma objetiva, mas todos sabemos amar.


A questão seguinte foi tentar entender a razão pela qual eu me incomodava tanto com o conceito de amor e não com o conceito de vida. A resposta foi que é porque eu sei sentir o que significa estar vivo, mas nunca tive certeza sobre a sensação de sentir o amor. É raro eu me deixar viver o momento, porque isso é sinônimo de perder o controle e perder o controle é absolutamente perigoso, sobretudo, num ambiente desconhecido. Lidar com pessoas, portanto, é sempre imprevisível. E o amor passa a ser complicado, porque ele sempre acontece em relação a algo ou alguém, não sendo um sentimento pessoal, mas conectado aos outros. Então, eu ainda não entendo o amor, mas sei que amo; mas me incomodo em saber que amo, sem entender o que significa o amor, sentindo apenas o que significa amar. Mas acho que isso é suficiente.


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