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Autista e LGBT

Atualizado: 8 de jul. de 2020


Foto de Jonas, foco no seu rosto com uma expressão séria. Ele usa camisa preta com detalhes coloridos. A logo do projeto está no canto superior esquerdo.

 

Ser autista e LGBT é muita coisa, e ao mesmo tempo é simples. É complexo e simples. Ser uma pessoa LGBT e uma pessoa autista, me faz ter duas questões de vulnerabilidade social: primeiro porque eu não estou na normatividade hetero-cis-normativa social, segundo porque não estou na normatividade neuro-bio-psicológica, sendo que eu sou uma pessoa com um transtorno mental e um transtorno global do neurodesenvolvimento. Normalmente isso funciona pra mim, porque são duas esferas que, apesar de serem separadas na minha vida, elas se relacionam muito diretamente.


Na verdade, o autismo, ele se relaciona com todas as áreas da minha vida, porque como ele é um transtorno global do neurodesenvolvimento, ele atua diretamente em todo o processamento de dados, funcionamento, estrutura, construção, fluxo do meu cérebro e do meu sistema nervoso central. Então, todas as regiões do meu sistema nervoso central, de alguma forma são influenciadas pelo autismo: pensamentos, minha atenção e todos os meus processos psicológicos. O fato de ser uma pessoa LGBT, me coloca dentro de um padrão não-normativo, mas a questão LGBT é uma questão puramente de orientação sexual, que todo mundo tem. Todo mundo tem a sua sexualidade, todo mundo tem a sua orientação sexual, então "como é ser LGBT e autista?" é uma pergunta muito ampla, porque cada LGBT autista tem uma vivência diferente sobre ser LGBT autista. Eu posso dizer que ser LGBT autista, na minha vivência, é ser eu, mas ser eu não significa toda a complexidade e toda a abrangência da população LGBT e da população autista, e da população LGBT autista, porque é muito amplo, mas eu sou um pouquinho de toda essa amplitude. Toda a minha complexidade é um pouquinho de toda a amplitude que é ser LGBT autista.


Eu, Jonas, frequento baladas e bares. Nem todo autista frequenta esses espaços, nem todo LGBT frequenta esses espaços. LGBTs por questão de identificação, e autistas muitas vezes por questões sensoriais. Encontro dificuldades, pois os estimulos sensoriais acabam sendo muito mais percebidos por mim, principalmente estimulos auditivos, visuais e táteis. Numa balada você tem muitos estimulo visuais, por conta da iluminação, por conta da decoração, enfim, você tem muitos estímulos táteis porque você é encostado por muitas pessoas, geralmente uma balada é um lugar onde as pessoas se aglomeram muito, que você é encostado por muitas pessoas, experimenta muitas texturas, desde encostar nas pessoas, até mesmo as bebidas que você toma, as comidas que você come. Os estímulos auditivos que a gente pode colocar aqui: a música, o caixa sendo aberto, as pessoas conversando ao mesmo tempo, todos os estímulos que você possa imaginar e o que você não possa imaginar, mas que uma pessoa autista percebe, eles acabam passando por mim. O cérebro de um autista é um cérebro hiperestimulado, ou seja, todos os estímulos que eu recebo, o meu cérebro processa de uma forma um pouco mais desordenada e até um pouco mais acelerada que o normal, isso faz com que muitas vezes eu não consiga administrar e não consiga lidar com tantos estímulos. Uma balada, por exemplo, apesar de gostar muito, eu não sou uma pessoa que frequenta todo fim de semana, agora na pandemia menos ainda, e quando frequentava eu ficava muito agitado. Tem uma coisa muito interessante na balada, que me ajuda bastante, que é a dança, é um lugar onde as pessoas dançam bastante, então eu danço muito e isso me ajuda a extravasar um pouco toda essa ansiedade hiperestimulada que eu recebo.


As relações sociais acabam sendo muito dificultosas, uma coisa em baladas ou em bares que me incomoda muito, é que muitas vezes nos cardápios não tem a relação de tudo o que vai numa comida ou numa bebida. Para um autista isso é muito importante, pensando na alimentação, na restrição do paladar, eu tenho uma restrição muito grande às vezes, dependendo do tipo de alimento ou de bebida, eu não gosto. Agora, com meus 25 anos de idade, estou aprendendo a tomar bebida alcoólica, porque eu não tomava. Eu tomava muito pouco, um gole a noite toda, agora estou aprendendo a tomar um pouco mais de um gole, efeitos da pandemia. Uma pessoa autista, ela muitas vezes não vai conseguir ir na balada e tudo mais. Eu vou, eu frequento bares, eu gosto de lanchonete, gosto de estar com as pessoas, mas eu sei que isso é muito meu. Eu não gosto de bares muito barulhentos, eu gosto de estar num lugar mais arejado, onde aquele barulho não fique concentrado num lugar, porque aquilo me incomoda demais, eu não consigo prestar atenção nas pessoas, é muito estímulo ao mesmo tempo e eu não consigo processar todos eles, a minha atenção acaba ficando desfocada. Na balada é a mesma coisa, eu não consigo ficar conversando com as pessoas, por não conseguir processar todos os estímulos que passam por mim. Inclusive, agora estou numa lanchonete, tomando meu café da manhã, e estou percebendo que existem muitos estímulos ao meu redor enquanto estou gravando esse áudio, que inclusive estou gravando com dois fones de ouvido para abafar um pouco esses sons, ou não conseguiria responder, estaria sempre olhando de um lado para o outro, procurando alguma fonte dessa estimulação.


As baladas e as festas realmente são espaços muito importantes para a sociabilidade LGBT, isso é histórico. No entanto, existem outros espaços sim! Podem ser feitos alguns piqueniques da diversidade nas cidades, podem ser feitos grupos de Whatsapp onde as pessoas podem começar a interagir e podem marcar videochamadas, depois da pandemia marcar encontros em casas, parques também são espaços interessantes. Existem inúmeras formas de você fazer amizade com pessoas LGBTs, e esses espaços específicos são extremamente importantes, pois são espaços onde a população LGBT se encontra de forma segura, onde ela pode expor sua orientação sexual, sua identidade gênero, suas expressões de gênero e as pessoas julgam menos ou até não julgam todas essas diversidades. Os espaços LGBTs em que essas pessoas se encontram são muito importantes, mas existem muitas outras alternativas, e aí vai da criatividade. Os próprios ambientes virtuais são espaços em que as pessoas podem fazer amizades, os aplicativos e tudo mais, mesmo que sejam espaços vinculados a encontros afetivos e sexuais, também podem ocorrer amizades.


As pessoas LGBTs enfrentam LGBTfobia, mas grande parte dessa população não é PCD ou pelo menos não se autodenomina PCD, então essas pessoas já vêem a população com deficiência com preconceito, com uma visão de que é menor, incapaz, que são consegue... Já tem esse estigma social, as pessoas com deficiência já sofrem isso de toda a sociedade e as pessoas LGBT estão na sociedade.


Quando a gente pensa na população LGBT autista, a gente tem que entender que as pessoas não sabem o que é o autismo. O autismo é muito amplo, muito complexo, e as pessoas não entendem o mínimo do que é o autismo. Quando você é LGBT com autismo, as pessoas até se sentem um pouco confusas, inclusive um grande estigma social de pessoas autistas é que autistas não têm interesse em relações sociais ou relações sexuais, o que é equivocado, pois existem autistas que tem interesse em relacionamentos e os que não tem, e tudo bem, são diversas formas de expressar o autismo. Ser autista não significa que eu não quero ter relacionamentos com outras pessoas, significa que eu tenho uma dificuldade em manter esses relacionamentos devido a uma condição neuro-bio-psicológica no meu sistema nervoso central, então eu vou apresentar dificuldades, mas eu posso querer manter esses relacionamentos, que podem ser namoro, amizade, sexo casual, amizade colorida, casamento, todas as formas possíveis de relacionamentos que existem atualmente e até mesmo as novas formas que estão surgindo. A ideia de que um PCD não tem sexualidade é muito estigmatizada, uma pessoa com deficiência ou tem uma sexualidade conturbada, ou uma sexualidade dificultada ou não tem sexualidade, porque a pessoa com deficiência é vista como uma pessoa infantilizada, o que é um grande erro, porque tem pessoas com deficiência das mais variadas possibilidades, das mais variadas formas, a sexualidade e a deficiência não necessariamente uma atrapalha a outra, elas se relacionam porque são questões do desenvolvimento daquela pessoa. A mesma coisa é a sexualidade e o autismo, existem autistas com um grande interesse sexual. Eu, por ser facilmente estimulado sensorialmente, minha sexualidade pode ser muito mais aflorada com algumas pessoas, então eu posso ter uma vida sexual, uma vida afetiva estável e ser uma pessoa com autismo. Uma coisa não anula a outra, elas se complementam, fazem parte de um todo. As pessoas LGBTs elas precisam, juntamente com toda a sociedade, desconstruir a visão capacitista e psicofóbica de que pessoas com deficiência não têm ou são incapazes de ter sexualidade.


Pessoas autistas podem ter diversas identidades de gênero e isso não minimiza a deficiência, é uma questão da construção pessoal, da construção social e politica que alguém tem sobre si e seu corpo, e assim como todos, pessoas autistas também sofrem dificuldades, enfrentam situações, tem potencialidades e muito a contribuir para com seus relacionamentos e com a sociedade.


Infelizmente não tenho amigos autistas que são LGBT. A falta de representatividade muitas vezes faz com que eu não tenha referenciais, nós LGBTs sabemos e nós autistas sabemos o quão difícil é você olhar para os espaços de representação, os espaços de poder, e ver que os seus não estão lá, que os seus não te dão permição nem para que você tenha acesso a eles, os seus estão excluídos e é importante que eles fiquem excluídos e separados porque a gente sabe que quando nós nos juntarmos com todos os outros nossos, com as mulheres, com os negros, com a população em situação de rua, quando juntarmos as nossas vulnerabilidades a gente vai começar a pensar junto. Tem gente que tem muito medo quando a gente pensa junto. Então pensar em representatividade também é pensar nesses laços, tanto nesses laços políticos que muitas vezes é estratégico para que a gente não se encontre enquanto coletivo, mas para além disso, pensar nesse lado social afetivo, é muito importante pra nós autistas LGBTs temos mais amigos autistas LGBTs, porque nós conseguimos nos ver no outro e possibilitamos o outro se ver em nós.


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